Farmacologia: Psicólogos americanos prescrevem remédios desde a década de 1990


A Farmacologia é o estudo e o uso científico de substância químicas que alteram o funcionamento do ser vivo com o objetivo de tratar alguma desordem. Do ponto de vista psicológico temos a Psicofarmacologia, que é uma prática na área da saúde relativamente recente, seu nascimento remonta principalmente para o final da década de 1940, quando se deu a invenção de substâncias que prometiam alterar o funcionamento neuropsicológico do sujeito tido como doente mental.

“… eu gostaria de levantar uma ideia simplista, mas talvez relevante, segundo a qual o nível final de resolução para a compreensão de como a intervenção psicoterapêutica funciona é idêntica ao nível com que nós estamos atualmente buscando entender como intervenções psicofarmacológicas funcionam – ao nível individual de células nervosas e suas conexões.” (Eric Kandel, 1979: 1028).

A explicação para o funcionamento da Psicofarmacologia é o mesmo para a eficácia da Psicoterapia. Do ponto de vista bioquímico, ambas as estratégias clínicas alterariam o funcionamento neuropsicológico e fariam uma espécie de “restruturação” nas conexões entre neurônios (células nervosas do nosso sistema nervoso central – SNC).

Em 1949 aconteceu a avaliação do primeiro “remédio psicológico”, quando o australiano John F. Cade comprovou que o carbonato de lítio estabilizava o humor do “doente bipolar”, também rotulado de “psicótico maníaco-depressivo”.

Essa nova intervenção ficou potencializada em 1952 quando, na França, os pesquisadores Jean Delay e Pierre Deniker utilizaram e testaram o neuroléptico clorpromazina durante três dias em oito pacientes psicóticos, os quais tiveram uma redução das suas alucinações auditivas. Assim, essa droga (tida como o “primeiro psicotrópico eficaz”) deu impulso ao tratamento químico de determinados transtornos psicológicos. Em outras palavras, a clorpromazina (o primeiro “antipsicótico”) inaugurou a Psicofarmacologia.

Psicologia e Psicofarmacologia
Desde de setembro de 1991, há um programa do “Departamento de Defesa” dos EUA, no qual psicólogos militares prescrevem remédios.

Desde de 1999 há locais com legislações que normalizam essa estratégia química do psicólogo clínico.

Em 2002, o governador Gary Johnson, usando os ótimos resultados do “Departamento de Defesa” americano, aprovou uma lei que autorizou que os psicólogos com pós-graduação em Farmacologia pudessem prescrever remédios.

O pós-graduação em Farmacologia para psicólogos tem duração de 450 horas, com prática clínica supervisionada e conta com uma certificação nacional. Esse curso americano conta com disciplinas, que os psicólogos brasileiros já cursam na sua graduação, como, por exemplo: psicofarmacologia, neuroanatomia, neurofisologia, clinica farmacológica, farmacologia, fisiopatologia, epidemiologia, etc. Após aprovado no exame nacional, o psicólogo recebe uma licença para praticar a prescrição de remédios (com supervisão) durante 02 anos. Após esse tempo, o psicólogo está apto à prescrever remédios sem supervisão.

Conforme o psicólogo americano Ph.D Russ Newman (2002), Diretor Executivo do setor de Práticas Profissionais da “American Psychological Association” (APA) esses cursos de pós-graduação garantem uma prescrição segura e efetiva. Newman comenta que com essa nova estratégia os psicólogos promoverão mais qualidade na sua intervenção e redução de custos, já que as pesquisas científicas (realizadas também por psicólogos clínicos e neuropsicólogos) mostram que a combinação de psicoterapia com o uso dos remédios produz resultados mais rápidos no tratamento de determinadas patologias (ex.: depressão, TOC, pânico, etc.).

Atualmente há vários territórios que desenvolveram legislações que autorizam o psicólogo a prescrever remédios, como: Louisiana, Novo México, Georgia, Illinois, Hawaii, Tennessee, Guam.

Nos últimos 10 anos mais de 13 estados americanos criaram legislação sobre a prescrição de remédios pelo psicólogo.

No Brasil já existem inúmeros psicólogos com especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado na área farmacológica. Como comentam os psicólogos Dr. Jesus Landeira-Fernandez e Dr. Antônio Pedro de Mello Cruz: “… é também nosso objetivo chamar a atenção do psicólogo clínico para o fato de que sua prática pode e deve ser enriquecida através da aquisição de conhecimento e treinamento necessário para o emprego de drogas psicotrópicas. Entre as várias razões que justificam esse direito está o grande avanço que a psicofarmacologia vem conquistando graças à pesquisa básica, que conta, inclusive, com grande participação de pesquisadores com formação em psicologia. Outra razão importante é que drogas psicotrópicas, bem como as psicoterapias, parecem atuar de forma semelhante no sistema nervoso central.” (LANDEIRA-FERNANDEZ; CRUZ, 1998).

Veja o vídeo (no Youtube) da “Associação de Psicologia do Estado do Missouri (EUA)” sobre a prerrogativa para prescrição de medicamentos por psicólogos clínicos. O vídeo foi legendado pelo psicólogo Dr. Paulo Abreu.

Bibliografia

  • KANDEL, Eric. R. (1979). Psychotherapy and the single synapse: The impact of psychiatric thought on neurobiological research. The New England Journal of Medicine, nº 8, p.1028-1037.
  • LANDEIRA-FERNANDEZ, J.; CRUZ, A.P.M. (1998). A interpretação psicobiológica da clínica psicológica: Por que a psicoterapia funciona? Por que psicoterapeutas devem ter o direito de prescrever drogas psicotrópicas? Cadernos de Psicologia. Universidade Estadual do Rio de Janeiro (RJ). nº 01.
  • NEWMAN, Russ (2002) in.: American Psychological Association (APA). New Mexico Governor Signs Landmark Law on Prescription Privileges for Psychologists. Washington, D.C., March 06.


Lista de alguns pesquisador e trabalhos científicos que defendem o direito do psicólogo prescrever remédios:

  • BARCLAY, A. (1989). Proposal for[i] re-training clinical psychologists for limited prescription privileges. Falls Church, VA: Department of Defense, Office of Surgeon-General, Department of Army, Directorate of Professional Services.
  • BROSKOWSKI, A.T. (1995). The evolution of health care: Implications for the training and carrers of psychologists. Professional Psychology: Reseach and Practice, nº 26, p. 156-162.
  • DELEON, P.H. (1993). Prescription privileges for psychologist: Evolution within the APA governance. National Register, nº 3, p. 01-10.
  • DELEON, P.H. (1995). Prescription privileges: Esciting federal developements. The Independent Practitioner, nº 15, p. 30-31.
  • DELEON, P.H., FOX, R.E. & GRAHAM, S.R. (1991). Presciption privileges: Psychology’s next frontier? American Psychologist, nº 46, p. 384-393.
  • DELEON, P.H. & WIGGINS, J. (1996). Prescription privileges for psychologist. American Psychologist, nº 51, p. 225-229.
  • FOX, R.E. (1994). Training psychologists for the twenty-first century. American Psychologist, nº 49, p. 200-206.
  • FOX, R.E., SCHWELITZ, F.D. & BARCLAY, A.G. (1992). A proposed curriculum for psychopharmachology training for professional psychologists. Professional Psychology: Research and Practice, nº 23, p. 216-219.
  • LANDEIRA-FERNANDEZ, J.; CRUZ, A.P.M. (1998). A interpretação psicobiológica da clínica psicológica: Por que a psicoterapia funciona? Por que psicoterapeutas devem ter o direito de prescrever drogas psicotrópicas? Cadernos de Psicologia. Universidade Estadual do Rio de Janeiro (RJ). nº 01.
  • KLEIN, R.G. (1996). Comments on expandings the clinical role of psychologist. American Psychologist, nº 51, p. 216-218.
  • PACHMAN, J. (1996). The dawn of a revolution in mental health. American Psychologist, nº 51, p. 213-215.
  • SAMMONS, M.T., SEXTON, J.L. & MERIDITH, J.M. (1996). Basic science training in psychopharmachology: How much is enough? American Psychologist, nº 51, p. 230-234.
  • SMYER, M.A., BALTER, R.L., EGLI, D., JOHNSON, D.L., KILBEY, M.M., LEITH, N.J. & PUENTE, A.E. (1993). Summary of the report of the Ad Hoc Task Force on psychopharmachology of the American Psychological Association. Professional Psychology: Research and Practice, nº 24, p. 394-403.

Artigo publicado originalmente em  30/09/2006.

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